Esta foto foi tirada em plena campanha das eleições de 1989,
fazia muito frio naquela noite e estávamos reunidos na primeira sede do PT, Rua
dos Vianas, São Bernardo do Campo. Não era mais um barracão propriamente dito,
tínhamos construído em alvenaria. Sem muitas cadeiras no local, no máximo dez,
sentávamos ao chão de cimento rústico mesmo, então, nesse dia (da foto) esperei
o ultimo orador ao microfone antes de Lula, tratava-se do companheiro e prefeito
da cidade, Mauricio Soares. Ao término da fala do prefeito, me aproximei de
Lula, dei a mão e apenas disse uma frase: Nós vamos vencer estas eleições,
respondeu ele, com certeza. Foi quando sem notar meu amigo eletricitário de nome
Júlio, registrou o momento. Não se trata das melhores fotos da caminhada, porem
a resposta de Lula, “com certeza” deu a ela um significado especial, talvez o
metalúrgico anunciasse, sem saber, o que o futuro lhe reservava. Não foi
naquele pleito, embora, admito, sem julgar quem quer que seja, que ainda me
incomoda o número de votos que a esquerda obteve, estou convencido que
vencemos, mas não levamos.
Esse tal Júlio, fotografo inesperado, era eletricitário e
amigo na Igreja, fazíamos parte das chamadas Cebs - Comunidades Eclesiais de Base,
o outro amigo daquela noite, cuja mão aparece sobre o ombro de Lula, era José Roberto
de Figueiredo, também eletricitário e militante respeitado, posteriormente se tornaria
profundo conhecedor do marxismo.
Minha empolgação e ansiedade eram elevadas, coisas normais
para um jovem de apenas 18 anos, muito bem, retirei neste dia uma parte do
material de campanha e me propus a distribuí-lo ainda naquela semana. De fato,
tudo estava planejado, haveria uma programação do movimento estudantil dois
dias após, em uma quinta feira, o objetivo principal era protestar contra os
aumentos abusivos nas mensalidades escolares. Pensei aproveitar a possibilidade
para panfletar no meio do movimento a fim de impulsionar a campanha
presidencial.
Parti com outros estudantes por volta das 18:00 do Colégio
Singular em Santo André, passei por outra escola de nome Pentágono nas
proximidades, agreguei mais alguns amigos e migramos para a estação de trem da
cidade de Santo André, o grupo tinha aproximadamente 20 estudantes. Decidimos
passar por dentro do pátio da prefeitura e sinalizamos com as mãos ao saudoso
Celso Daniel, prefeito na época que conversava naquele momento com o vereador
Professor Luizinho, a poucos metros adiante encontramos o histórico militante
comunista Philadelpho Braz, de feliz memória a quem de modo particular saudei
com alegria.
O destino do grupo era o Colégio Alexandre Arminas na cidade
de Mauá, bem ao lado da Igreja Matriz, onde havia uma grande concentração. O planejamento original era o colégio Barão
de Mauá, mas como já havia um grupo coordenando por lá, decidiram mudar no dia
anterior o nosso itinerário a fim de atender a outra assembleia. A frente do colégio e da Igreja estava lotada,
mais de trezentas pessoas, posso assegurar, muito discurso, música e diversão.
No grupo que trouxe de Santo André, estava um estudante da
zona leste chamado André e um jornalista espanhol cujo nome não me lembro por
ser difícil, e por ter sido o único contato.
Eu havia conhecido o André na festa do 1 º de Maio daquele
ano quando ele distribuía um boletim chamado Gazeta Marxista, o mesmo me pediu
um diálogo mais aprofundado devido a minha atuação nas Cebs. Foi desse modo que
o convidei para o ato estudantil citado.
O André e o Jornalista espanhol foram ao evento em Mauá, lá
conversamos um pouco, estes decidiram sair do evento por volta das 20h30min porque
tinham outro compromisso. Por
generosidade, decidi levá-los até o antigo terminal rodoviário de Mauá, onde
hoje fica o MacDonald’s, os embarquei na Viação Ribeirão Pires com destino ao
Parque Dom Pedro.
Na caminhada que fiz de retorno, percebi uma viatura
(camburão) totalmente com os faróis apagados me acompanhando, chegando a
esquina do evento, onde deveria entrar em uma rua à direita (Rua Sorocabana),
achei que não fosse dar tempo, então, decidi ir pela esquerda atravessando a
Av. Capitão João. Minha intenção era entrar na estação de trem e despistá-los, já
que o portão ficava de frente na época, ao adentrar avistei o trem na plataforma
e corri por umas rampas gigantescas, mas como carregava uns pacotes pesados da
propaganda de Lula (bolsa da foto), a velocidade não ajudou, foi tempo suficiente
para a polícia me interceptar com violência na bilheteria.
Empurrão, chutes, socos e pronto, estava algemado, porém,
algo de coragem aconteceu antes de me colocarem as amarras, um policial jogou
minha carteira fora, eu desobedeci e a peguei no chão, o que o deixou muito
irritado, mas não abri a boca.
Eram três policiais no total e não me colocaram no chamado
chiqueirinho, fiquei mesmo no banco de trás, por mais incrível que possa
parecer, o que mais me bateu foi o motorista, o cara conseguia girar o braço
direito para trás com muita força e acertar o meu rosto, ao seu lado estava o sargento
que não me encarou em momento algum. O terceiro que estava ao meu lado e empurrava
com a mão direita o cano do revólver na lateral da barriga causando dor e com a
mão esquerda no cabelo mantinha o meu rosto próximo aos dois da frente.
O sargento parecia humilde, tinha uma atitude de quem
cumpria ordens, não me bateu ou dirigiu qualquer palavra, falava baixo, suave,
o assunto com o motorista era sobre uma pessoa que eu não conseguia captar, o
nome não foi dito, mais tarde descobri de quem se tratava de outro policial, e
prefiro ainda manter o nome em sigilo, podemos chama-lo de C.
O jovem motivo do assunto era um policial de nome C,
politicamente de esquerda e engajado no movimento estudantil, andávamos sempre
juntos e certa vez em uma festa, me apresentou um “amigo” B, também policial.
Aqui ficou comprovado minha inocência de militante novato, pois no evento haviam
muitas viaturas fazendo segurança e notei que este policial B, “amigo” de C, estava
à paisana e a uma certa distância de mim, em um determinado momento o peguei me
apontando para outros policiais, imaginei que estivesse falando bem de mim, nem
me preocupei.
Foi exatamente a viatura em que ele estava encostado que me
capturou momentos após, ficou claro que o serviço de Inteligência da policia
queria flagrar o meu amigo policial C, mas que não estava presente ao evento. Planejaram
prendê-lo em uma atividade inadequada ao bom soldado, mas não conseguiram, de
forma inteligente ele evitou a exposição pública. Por frustração ao planejado,
decidiram atacar o amigo do insubordinado soldado para não perderem a viagem,
quase paguei com a própria vida.
Levaram-me primeiro a uma rua onde estava estacionado um
fusquinha azul roubado, já existia outra viatura por lá, o veículo tinha o
quebra vento arrancado, e o soldado malvado (motorista) me perguntou com
ironia: O que você acha de assumir na delegacia o roubo deste veículo, eu
respondi, de modo nenhum senhor, venho de família trabalhadora, honesta e muito
religiosa. Pediu que eu pensasse melhor e eu lhe respondi, prefiro a morte.
Me conduziram novamente para dentro da viatura e saímos, o
passeio foi longo, momentos depois transitávamos por uma estrada de bom asfalto,
mas completamente cercada de mato, só pude avistar um posto de gasolina, nada
mais. A viatura saiu da estrada e pegou uma estradinha de terra, estreita, meu
corpo percebeu a hora da morte e em oração silenciosa preparei o espírito. O
veículo parou entre capins altos, estava escuro, farol baixo aceso, não
apresentei pânico, em segundos rezei por minha família e agradeci a Deus por ter
me concedido a vida.
Desceram da viatura o sargento e o motorista com uma
lanterna a mão, eu fiquei no veículo com o outro policial, este mais novo, não
se envolveu, então começou um bate boca entre o sargento e o motorista lá fora,
dizia a autoridade, vamos soltar o rapaz, e o agressor não queria.
O chefão impôs sua vontade, a de me soltar, e eu ouvi quando
o motorista disse bem baixinho a ele, não podemos levá-lo de volta, a resposta
do sargento foi também baixinha, este menino não ameaça, o motorista retrucou,
faça o que você achar melhor. Retornando a viatura, não mais emitiram qualquer
palavra, apenas o sargento pegou o rádio e falou com outra pessoa, a viatura
parou novamente em um local próximo a estrada de asfalto e ficou por lá até o
momento em que chegou um fusca da polícia, popularmente conhecida por baratinha,
me transferiram para esta. Hoje reconheço bem o local e a estrada, naquela
época não tinha a menor noção de onde estava, lembro-me do posto de gasolina e um
cemitério, trata-se do município de Rio Grande da Serra.
A baratinha me levou de volta a Mauá, não ao local do
evento, foi ao bar do pai do policial C, militante de esquerda, tiraram as
algemas e me empurraram nos braços do pai deste meu amigo, o filho não se encontrava,
mas o recado estava dado, e meu amigo policial terminou por deixar a corporação
dias após. Permaneci por três dias após o fato recolhido em uma Paróquia, o
Padre e um seminarista (este falecido infelizmente), acharam por bem me
abrigar.
Sou grato a DEUS acima de tudo, e também ao sargento porque
de alguma forma ele foi divinamente a manter a lucidez e a sensibilidade, assim,
eu pude ver a vitória de Lula anos à frente.