Blog Arquivo

Siga-me

Bíblia On Line

ESCAPEI DA MORTE E PUDE VER A VITÓRIA DE LULA

Postado por Bernardino Brito quinta-feira, 18 de abril de 2013 0 comentários



Esta foto foi tirada em plena campanha das eleições de 1989, fazia muito frio naquela noite e estávamos reunidos na primeira sede do PT, Rua dos Vianas, São Bernardo do Campo. Não era mais um barracão propriamente dito, tínhamos construído em alvenaria. Sem muitas cadeiras no local, no máximo dez, sentávamos ao chão de cimento rústico mesmo, então, nesse dia (da foto) esperei o ultimo orador ao microfone antes de Lula, tratava-se do companheiro e prefeito da cidade, Mauricio Soares. Ao término da fala do prefeito, me aproximei de Lula, dei a mão e apenas disse uma frase: Nós vamos vencer estas eleições, respondeu ele, com certeza. Foi quando sem notar meu amigo eletricitário de nome Júlio, registrou o momento. Não se trata das melhores fotos da caminhada, porem a resposta de Lula, “com certeza” deu a ela um significado especial, talvez o metalúrgico anunciasse, sem saber, o que o futuro lhe reservava. Não foi naquele pleito, embora, admito, sem julgar quem quer que seja, que ainda me incomoda o número de votos que a esquerda obteve, estou convencido que vencemos, mas não levamos.
Esse tal Júlio, fotografo inesperado, era eletricitário e amigo na Igreja, fazíamos parte das chamadas Cebs - Comunidades Eclesiais de Base, o outro amigo daquela noite, cuja mão aparece sobre o ombro de Lula, era José Roberto de Figueiredo, também eletricitário e militante respeitado, posteriormente se tornaria profundo conhecedor do marxismo.
Minha empolgação e ansiedade eram elevadas, coisas normais para um jovem de apenas 18 anos, muito bem, retirei neste dia uma parte do material de campanha e me propus a distribuí-lo ainda naquela semana. De fato, tudo estava planejado, haveria uma programação do movimento estudantil dois dias após, em uma quinta feira, o objetivo principal era protestar contra os aumentos abusivos nas mensalidades escolares. Pensei aproveitar a possibilidade para panfletar no meio do movimento a fim de impulsionar a campanha presidencial.
Parti com outros estudantes por volta das 18:00 do Colégio Singular em Santo André, passei por outra escola de nome Pentágono nas proximidades, agreguei mais alguns amigos e migramos para a estação de trem da cidade de Santo André, o grupo tinha aproximadamente 20 estudantes. Decidimos passar por dentro do pátio da prefeitura e sinalizamos com as mãos ao saudoso Celso Daniel, prefeito na época que conversava naquele momento com o vereador Professor Luizinho, a poucos metros adiante encontramos o histórico militante comunista Philadelpho Braz, de feliz memória a quem de modo particular saudei com alegria.
O destino do grupo era o Colégio Alexandre Arminas na cidade de Mauá, bem ao lado da Igreja Matriz, onde havia uma grande concentração.  O planejamento original era o colégio Barão de Mauá, mas como já havia um grupo coordenando por lá, decidiram mudar no dia anterior o nosso itinerário a fim de atender a outra assembleia.  A frente do colégio e da Igreja estava lotada, mais de trezentas pessoas, posso assegurar, muito discurso, música e diversão.  
No grupo que trouxe de Santo André, estava um estudante da zona leste chamado André e um jornalista espanhol cujo nome não me lembro por ser difícil, e por ter sido o único contato.
Eu havia conhecido o André na festa do 1 º de Maio daquele ano quando ele distribuía um boletim chamado Gazeta Marxista, o mesmo me pediu um diálogo mais aprofundado devido a minha atuação nas Cebs. Foi desse modo que o convidei para o ato estudantil citado.
O André e o Jornalista espanhol foram ao evento em Mauá, lá conversamos um pouco, estes decidiram sair do evento por volta das 20h30min porque tinham outro compromisso.  Por generosidade, decidi levá-los até o antigo terminal rodoviário de Mauá, onde hoje fica o MacDonald’s, os embarquei na Viação Ribeirão Pires com destino ao Parque Dom Pedro.
Na caminhada que fiz de retorno, percebi uma viatura (camburão) totalmente com os faróis apagados me acompanhando, chegando a esquina do evento, onde deveria entrar em uma rua à direita (Rua Sorocabana), achei que não fosse dar tempo, então, decidi ir pela esquerda atravessando a Av. Capitão João. Minha intenção era entrar na estação de trem e despistá-los, já que o portão ficava de frente na época, ao adentrar avistei o trem na plataforma e corri por umas rampas gigantescas, mas como carregava uns pacotes pesados da propaganda de Lula (bolsa da foto), a velocidade não ajudou, foi tempo suficiente para a polícia me interceptar com violência na bilheteria.
Empurrão, chutes, socos e pronto, estava algemado, porém, algo de coragem aconteceu antes de me colocarem as amarras, um policial jogou minha carteira fora, eu desobedeci e a peguei no chão, o que o deixou muito irritado, mas não abri a boca.
Eram três policiais no total e não me colocaram no chamado chiqueirinho, fiquei mesmo no banco de trás, por mais incrível que possa parecer, o que mais me bateu foi o motorista, o cara conseguia girar o braço direito para trás com muita força e acertar o meu rosto, ao seu lado estava o sargento que não me encarou em momento algum. O terceiro que estava ao meu lado e empurrava com a mão direita o cano do revólver na lateral da barriga causando dor e com a mão esquerda no cabelo mantinha o meu rosto próximo aos dois da frente.
O sargento parecia humilde, tinha uma atitude de quem cumpria ordens, não me bateu ou dirigiu qualquer palavra, falava baixo, suave, o assunto com o motorista era sobre uma pessoa que eu não conseguia captar, o nome não foi dito, mais tarde descobri de quem se tratava de outro policial, e prefiro ainda manter o nome em sigilo, podemos chama-lo de C.
O jovem motivo do assunto era um policial de nome C, politicamente de esquerda e engajado no movimento estudantil, andávamos sempre juntos e certa vez em uma festa, me apresentou um “amigo” B, também policial. Aqui ficou comprovado minha inocência de militante novato, pois no evento haviam muitas viaturas fazendo segurança e notei que este policial B, “amigo” de C, estava à paisana e a uma certa distância de mim, em um determinado momento o peguei me apontando para outros policiais, imaginei que estivesse falando bem de mim, nem me preocupei.
Foi exatamente a viatura em que ele estava encostado que me capturou momentos após, ficou claro que o serviço de Inteligência da policia queria flagrar o meu amigo policial C, mas que não estava presente ao evento. Planejaram prendê-lo em uma atividade inadequada ao bom soldado, mas não conseguiram, de forma inteligente ele evitou a exposição pública. Por frustração ao planejado, decidiram atacar o amigo do insubordinado soldado para não perderem a viagem, quase paguei com a própria vida.
Levaram-me primeiro a uma rua onde estava estacionado um fusquinha azul roubado, já existia outra viatura por lá, o veículo tinha o quebra vento arrancado, e o soldado malvado (motorista) me perguntou com ironia: O que você acha de assumir na delegacia o roubo deste veículo, eu respondi, de modo nenhum senhor, venho de família trabalhadora, honesta e muito religiosa. Pediu que eu pensasse melhor e eu lhe respondi, prefiro a morte.
Me conduziram novamente para dentro da viatura e saímos, o passeio foi longo, momentos depois transitávamos por uma estrada de bom asfalto, mas completamente cercada de mato, só pude avistar um posto de gasolina, nada mais. A viatura saiu da estrada e pegou uma estradinha de terra, estreita, meu corpo percebeu a hora da morte e em oração silenciosa preparei o espírito. O veículo parou entre capins altos, estava escuro, farol baixo aceso, não apresentei pânico, em segundos rezei por minha família e agradeci a Deus por ter me concedido a vida.
Desceram da viatura o sargento e o motorista com uma lanterna a mão, eu fiquei no veículo com o outro policial, este mais novo, não se envolveu, então começou um bate boca entre o sargento e o motorista lá fora, dizia a autoridade, vamos soltar o rapaz, e o agressor não queria.
O chefão impôs sua vontade, a de me soltar, e eu ouvi quando o motorista disse bem baixinho a ele, não podemos levá-lo de volta, a resposta do sargento foi também baixinha, este menino não ameaça, o motorista retrucou, faça o que você achar melhor. Retornando a viatura, não mais emitiram qualquer palavra, apenas o sargento pegou o rádio e falou com outra pessoa, a viatura parou novamente em um local próximo a estrada de asfalto e ficou por lá até o momento em que chegou um fusca da polícia, popularmente conhecida por baratinha, me transferiram para esta. Hoje reconheço bem o local e a estrada, naquela época não tinha a menor noção de onde estava, lembro-me do posto de gasolina e um cemitério, trata-se do município de Rio Grande da Serra.
A baratinha me levou de volta a Mauá, não ao local do evento, foi ao bar do pai do policial C, militante de esquerda, tiraram as algemas e me empurraram nos braços do pai deste meu amigo, o filho não se encontrava, mas o recado estava dado, e meu amigo policial terminou por deixar a corporação dias após. Permaneci por três dias após o fato recolhido em uma Paróquia, o Padre e um seminarista (este falecido infelizmente), acharam por bem me abrigar.
Sou grato a DEUS acima de tudo, e também ao sargento porque de alguma forma ele foi divinamente a manter a lucidez e a sensibilidade, assim, eu pude ver a vitória de Lula anos à frente.

| | edit post