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20 anos depois: quem são os donos do plano Real?

Postado por Bernardino Brito quarta-feira, 15 de outubro de 2014 0 comentários

A estabilização da inflação aconteceu ao custo da substituição de produtos nacionais por importados e o agravamento da situação fiscal

João Sicsú

Plano Real

Coube, sim, aos economistas do PSDB patrocinar o não aprofundamento da fase de sincronização dos preços, a promoção de uma enorme substituição de produtos nacionais por produtos importados durante a fase de estabilização e o agravamento da situação fiscal brasileira
O plano Real, lançado em 28 de fevereiro de 1994, foi um plano influenciado pelas ideias do economista inglês John Maynard Keynes e pelas experiências hiperinflacionárias europeias (da primeira metade do século XX), mas que contou com uma questionável administração de economistas brasileiros e com as (des)orientações do Fundo Monetário Internacional (FMI). Longe de ter sido “idealizado por Fernando Henrique Cardoso”, como afirmam O Globo e outros veículos assemelhados, o plano foi organizado e dirigido exclusivamente pelos economistas do PSDB.
Fernando Henrique Cardoso (FHC) era o ministro da Fazenda durante o período de lançamento do Plano. O presidente era Itamar Franco. Um mês após o lançamento do plano, FHC se desincompatibilizou do cargo para se candidatar à Presidência da República pelo PSDB. Rubens Ricupero assumiu o ministério da Fazenda. Ricupero deveria ser o responsável por toda a condução do plano.
Em um estúdio da TV Globo, antes de uma gravação, o ministro da Fazenda revelou reservadamente ao jornalista Carlos Monforte suas intenções, vontades e ideias sobre o plano Real.  Não contava, contudo, que estava em canal aberto para algumas residências que possuíam antena parabólica. Sua conversa com o jornalista foi gravada e divulgada.
O ministro, falando informalmente sobre o plano Real, disse: “O que é bom a gente fatura. O que é ruim, esconde.” Além disso, afirmou que era o principal “cabo eleitoral” de FHC. Ele se considerava também um achado para a Rede Globo porque a emissora poderia fazer a campanha de FHC através das suas aparições - “o tempo todo no ar”, segundo palavras do próprio ministro da Fazenda.
Após a divulgação da sua conversa com o jornalista da Globo, não restou outra alternativa: ele pediu demissão do cargo em 6 de setembro para não contaminar a campanha tucana à Presidência. Contudo, o mais importante para entendimento da economia política do Real foi a proposta econômica que o ministro fez durante a conversa informal e que viria a se tornar o carro-chefe da fase de derrubada da inflação proposta no plano. À frente, este ponto será desenvolvido.
Antes do lançamento da nova moeda, o real, a inflação era elevada. Mais do que isso: existia um regime de alta inflação, isto é, havia uma dança de preços. Alguns preços subiam porque outros tinham subido. E estes subiam porque aqueles haviam subido. E assim os preços aumentavam de forma sucessiva. Havia uma corrida de preços, mas de forma dessincronizada: aumentavam em momentos diferenciados e com percentuais diferentes. Além disso, nenhum contrato era assinado com a moeda corrente, o cruzeiro real. Os contratos usavam moedas fictícias (referências) ou algum índice para indexar o seu valor à inflação e/ou aos desejos dos contratantes.
Muito foi acumulado em termos de discussões e experiências desde o Plano Cruzado de fevereiro de 1986 até o lançamento do Real. Nos meios acadêmicos fervilhavam artigos e debates sobre o assunto. O Plano Cruzado havia dado errado por um simples fato: o seu carro-chefe foi o congelamento de preços. O raciocínio era simples: se os preços sobem porque outros já subiram, então congelam-se os preços e não haverá mais motivos para reajustes. Errado: os preços estavam dessincronizados, então quem ficara “mal na foto” (isto é, ainda não tinha reajustado o seu preço) no momento em que houve o congelamento não aceitou aquela situação e reagiu, reajustando seus preços. Aí... os outros reagiram também. Assim, ruiu o congelamento e o Plano Cruzado. Utilizado eleitoralmente pelo PMDB, o congelamento de preços foi mantido (com a Polícia Federal e fiscais nas ruas) somente até as eleições de novembro de 1986. O resultado: o PMDB ganhou o governo dos estados de todas as unidades da federação, exceto Sergipe.
Além da experiência do Cruzado, havia mais uma lição muito importante na história econômica. Keynes, o economista inglês, foi convidado pelo governo alemão, em 1922, a apresentar um plano para derrubar a hiperinflação alemã.
Os pilares do Plano de Keynes eram os seguintes: (i) a derrubada da inflação deveria ser uma iniciativa do governo, já que desconfiava de qualquer tipo de ajuda externa, (ii) fixação da taxa de câmbio para promover a estabilização, já que os preços estavam perfeitamente indexados ao dólar (isto é, os preços subiam de forma sincronizada todos os dias) e (iii) os déficits públicos seriam curados posteriormente, depois da estabilização e como consequência do crescimento econômico (que possibilitaria aumento da arrecadação).
Estas lições eram bastante conhecidas entre os economistas brasileiros no início dos anos 1990. Minha dissertação de mestrado, defendida em 1993, intitulava-se “As lições do Plano Keynes para um projeto de estabilização”. Muitos economistas escreveram trabalhos acadêmicos relevantes relacionando as ideias de Keynes, os países que conviveram com a hiperinflação e um plano de estabilização para o Brasil. Destacavam-se Paulo Nogueira Batista Jr. e Gustavo Franco. Rudner Dornbusch, um professor americano do MIT – e que com frequência visitava o departamento de economia da PUC-Rio, ninho dos economistas do PSDB – republicou parte do Plano Keynes em 1987 em artigo de sua autoria.
Na primeira parte da década de 1990, havia uma grande lição já apreendida do Plano Keynes e do fracasso do Cruzado: era preciso sincronizar a dança dos preços com a variação diária do valor do dólar. Dado este passo, o próximo seria o lançamento de uma âncora cambial (cuja versão mais recomendada era o congelamento da taxa de câmbio em um patamar de equilíbrio, isto é, que estimulasse exportações e defendesse o mercado doméstico da invasão de produtos importados). O FMI aproveitou este ambiente para lançar mais uma de suas ideias: países “irresponsáveis” não poderiam ter sequer moeda, deveriam utilizar o dólar americano como moeda. O FMI foi o principal incentivador da radical dolarização argentina, que quase extinguiu o peso durante a década de 1990, e do fim da moeda nacional (o sucre) no Equador, que até hoje está sem sua própria moeda – apesar de ser governado pelo antineoliberal Rafael Correa.
Os economistas do PSDB inventaram uma dolarização disfarçada para a economia brasileira. Uma boa invenção, originária nas proposições de André Lara Rezende e Pérsio Arida (proposição conhecida à época por “Larida”). Lançaram no dia 1º de março de 1994 a Unidade Real de Valor (URV), que valia 1 dólar americano e tentaram por 4 meses (de março a junho) URVerizar todos os preços. Em outras palavras, estimularam que os preços subissem todos os dias de forma sincronizada e referenciada na URV que valia 1 dólar – e que variava de valor todos os dias.
A tentativa de dolarização/sincronização de preços à brasileira foi um fiasco. Somente os contratos públicos (energia elétricas e outros) aderiram, de fato, à URV. Existem trabalhos científicos (nunca contestados) publicados na Revista de Economia Política que demonstram esta afirmação. Na época, surgiu um racha entre os economistas do PSDB. Uns avaliavam que seria necessário que o período de dolarização/sincronização tivesse pelo menos um ano para que todos os preços aderissem à URV. Outros, não. O motivo para o tiro curto de apenas quatros meses foi essencialmente eleitoral.
Óbvio que uma boa sincronização seria desejada para que a fase seguinte, a da estabilização, fosse bem sucedida – afinal, a lição do Cruzado estava viva na memória dos economistas. Mas a parte vencedora argumentou que tal fase deveria ser curta (não havia tempo, diziam). A fase de estabilização deveria chegar logo, deveria ocorrer pelo menos quatro meses antes das eleições de novembro de 1994. Caso contrário, perderiam as eleições, já que Lula estava bem na frente de FHC – em maio, as pesquisas apontavam a vitória do petista no primeiro turno (43% contra 17% de FHC) – a reviravolta eleitoral somente ocorreu depois de 1º de julho, quando entrou em cena a nova moeda, o real, em substituição à velha, o cruzeiro real.
A fase de sincronização da dança de preços via URV foi um fiasco econômico. Então, alguns céticos do plano Real pensaram que tudo daria errado porque os preços voltariam a dançar e subir, tal como no Plano Cruzado. Os economistas do PSDB sabiam que isto, de fato, poderia ocorrer. Lançaram mão de uma “âncora” inovadora: câmbio megavalorizado e abertura comercial. A âncora lançada em 1º julho não foi a do câmbio fixo e equilibrado, tal como estava no Plano Keynes, mas sim a do câmbio flutuante (para baixo) e do câmbio megavalorizado (inicialmente com R$ 1 comprava-se US$ 1,mas logo em seguida com 84 centavos de real comprava-se 1 dólar americano). Com esse câmbio e com a abertura comercial, as pressões por reajuste foram dissolvidas de forma truculenta com uma invasão avassaladora de produtos importados.
O caminho foi exatamente aquele anunciado pelo ministro Ricupero na conversa reservada que foi capitada pelas antenas parabólicas. Ele considerava que quem desejava fazer reajustes eram “bandidos” e que ele daria uma “pancada” promovendo importações. Disse:
- Eu vou fazer um troço firme.
- É pra tudo quanto é bem de consumo e tal. Importação de tudo. ... Bens duráveis também.
- Vou fazer uma coisa grande.
- É tudo bandido.
O que manteve os preços estabilizados, após o lançamento da nova moeda em 1º de julho de 1994, foi a concorrência desleal de produtos importados – essa foi a principal “âncora” do plano Real – não existiu qualquer âncora cambial, tal como sugerida por Keynes ou aplicada em diversas experiências. Não houve acomodação de preços, mas sim o deslocamento de produtos nacionais e a introdução de produtos importados no mercado doméstico brasileiro. O valor das importações de bens de consumo era, em 1993, US$ 3,2 bilhões; em 1998, alcançou US$ 10,8 bilhões – mais que triplicou!
Dessa forma, os preços foram controlados e as pressões foram, dissolvidas pela exclusão de produtos domésticos do mercado brasileiro. Logo em seguida, para fazer crer que o que estava funcionando era a âncora cambial, foi permitida a concessão de crédito bancário em dólares – a operação era feita em real, mas era convertida de acordo com a taxa de câmbio do dia. Também a dívida pública interna foi, em boa parte, dolarizada para fazer crer que até o governo não aceitaria uma desvalorização.
Embora vendessem a fantasia do câmbio fixo, o crucial para os economistas do PSDB, à época, não era se o câmbio estava congelado, mas sim se ele estava megavalorizado para ser combinado com uma estratégia de abertura comercial. As importações cresceram, o saldo negativo com o exterior aumentou e os preços foram estabilizados, mas com taxas de juros estratosféricas com o objetivo de atrair dólares para o país. Essas taxas de juros bancavam a avalanche de importações de bens de consumo. Em 1994, a taxa de juros Selic média foi superior a 70% ao ano; em 1995, superior a 54%. No período que vigorou o plano Real, entre 1º de julho de 1994 a meados de 1999 (quando foi implantado o regime de metas de inflação), a taxa de juros Selic média foi de 38% ao ano.
Em 1998, a taxa de câmbio super-hiper-megavalorizada já não era mais suportável. Houve muitos debates internos entre economistas do PSDB e foi decidido pelo presidente-candidato à reeleição que a desvalorização somente ocorreria após as eleições de novembro. Vitorioso nas urnas com a promessa que não haveria desvalorização (veja a capa de O Globo de 31 de agosto de 1998: FH GARANTE QUE NÃO MEXE NOS JUROS NEM NO CÂMBIO). Mas em janeiro de 1999, FHC substituiu o presidente do Banco Central, que estava provavelmente entre aqueles que não queriam a desvalorização, e autorizou o desmonte da farsa eleitoral e econômica: o câmbio foi desvalorizado.
Os céticos erraram novamente. Pensaram: “agora a coisa afunda”. Não percebiam que a âncora do Real era outra. Apesar da desvalorização ocorrida dentro de uma “banda diagonal transversa”, segundo os termos quase ininteligíveis do novo presidente do Banco Central, o dólar continuava muito barato.
Esta foi a história do Plano Real. Entre 1999 e 2003/4 houve somente o aprofundamento dos fundamentos macroeconômicos ditados pelos economistas liberais do PSDB e pelo FMI. Os resultados dos anos de Plano Real foram dramáticos em termos de criação de empregos formais, de crescimento e concentração de renda.
A “responsabilidade” fiscal apregoada (pelo FMI e os economistas do PSDB) foi transformada em elevação da carga tributária e da dívida líquida pública como proporção do PIB. Os resultados fiscais somente viriam a melhorar (e muito) com o crescimento econômico da era Lula – tal como sugeria o Plano Keynes. Cabe lembrar que a primeira fase do Real, anterior à suposta sincronização de preços e à estabilização da inflação, era a fase da busca do equilíbrio das contas públicas. Neste ponto talvez resida o maior desastre do plano Real. A dívida líquida do setor público em relação ao PIB, de 38,2% em 1993, saltou para 48,7% em 1999.
A maior herança benigna do Plano Real foi a consciência antiinflacionária absorvida pela sociedade (para a qual o plano Cruzado também contribuiu). Sim, a inflação foi controlada, mas isso não isenta os organizadores e condutores do plano Real de seus graves equívocos. Por outras vias, mais aderentes ao plano Keynes, a inflação também teria sido debelada – é o que mostram inúmeras experiências. Não foi somente o Brasil que enfrentava um regime de alta inflação e não foi somente o Brasil que conseguiu superá-lo. Por exemplo, na Argentina, nos cinco primeiros anos pós-estabilização, a economia cresceu em média 7,8% ao ano – em seguida as orientações do FMI levaram a Argentina para uma crise profunda. Mas, no Brasil, o crescimento foi medíocre e, em decorrência, os custos sociais foram altos demais.
A primeira fase do Real promoveria um ajuste fiscal e melhoraria os resultados das contas públicas. Ocorreu o inverso. A segunda fase, a da sincronização do reajuste de preços, foi apenas “para inglês ver”. E a terceira fase, a da estabilização, obteve êxito, mas alcançou seu objetivo à custa de juros altos para conter a perda de reservas, desnacionalização da economia, geração de poucos empregos formais, baixo crescimento e concentração de renda. Poderia ter sido bem sucedida sem estes custos.
Ainda sobre a última fase do Real, a fase de estabilização, que foi de julho de 1993 a meados de 1999, vale uma observação muito importante: a inflação média desse período foi superior a 12% ao ano – uma inflação muito superior à inflação dos últimos dez anos, que é inferior a metade daquela registrada nos anos que são hoje comemorados pelo PSDB. Portanto, o que o plano Real fez, de fato, foi lançar as bases da estabilização consagrada apenas no último decênio – é o que está provado pelos números. Mas cabe uma observação: a sociedade brasileira precisa de muito mais do que uma economia com inflação controlada –  e tudo o que vai além disso não foi sequer iniciado nos governos do PSDB.
Vale o exame de alguns outros números. A concentração de renda foi extraordinária nos anos do plano Real: a participação dos salários no PIB caiu de 45,1% em 1993 para 38,2% em 1999. A carga tributária aumentou 11% entre 1993 e 1999. A taxa média de crescimento econômico foi de 2% (a mesma taxa de crescimento do governo Dilma). No primeiro mandato de FHC, que corresponde à aproximadamente ao período do plano Real, foram criados apenas 824 mil empregos formais (em 4 anos), um número ridículo se comparado à média da última década, que tem sido a criação de mais de 1 milhão de empregos formais por ano.
A concepção original do Plano Real era excepcional e tinha base teórica e histórica – contudo, não foi uma invenção de economistas brasileiros. Coube, sim, aos economistas do PSDB patrocinar o não aprofundamento da fase de sincronização dos preços, a promoção de uma enorme substituição de produtos nacionais por produtos importados durante a fase de estabilização e o agravamento da situação fiscal brasileira. Mas hoje, 20 anos depois, somente lembram do que chamam de derrubada da inflação. Não possuem sequer a honestidade intelectual para reconhecer os erros e os custos sociais pagos em nome de estratégias eleitorais e crenças neoliberais.


Link original da matéria




Texto postado por:


Ricardo Alvarez no blog controversia.com.br

| | edit post

 Via contrversia.com.br
Eric Toussaint. Vou começar imediatamente o tema, a partir de um olhar sobre os "fundos abutres". Em primeiro lugar diria que os "fundos abutres" são a versão extrema do capitalismo financeiro. A versão extrema, isto é, que são a vanguarda e por trás estão os batalhões, que se chamam Goldman Sachs, Santander, J.P. Morgan, BBVA, City Bank, etc.

Eric Toussaint

A sentença do juiz Griesa procura fazer retroceder a América Latina à situação do final do século XIX e da primeira parte do século XX, quando os Estados Unidos tinham a possibilidade de intervir, assim como outros credores, de maneira direta para forçar o pagamento da dívida.
Assim, pois, é um desafio muito importante ter colocado no programa, como fizeram os organizadores, o tema em termos de alternativa da Doutrina Drago | [1] |; efetivamente, é um elemento importante. De que trata a Doutrina Drago? O chanceler Elías Jaua já mencionou e destacou a contribuição de Drago no conflito da Venezuela com os credores em 1902.
Há, na realidade, duas doutrinas: a Doutrina Drago e a Doutrina Calvo | [2] |. Ambos eram juristas argentinos. Calvo, o primeiro que emitiu a doutrina, disse que os países da América Latina tinham que resolver os litígios com estrangeiros via sua jurisdição nacional e não podiam delegar à Justiça dos Estados Unidos ou de qualquer outro país ditar uma sentença acerca de um litígio.
Drago, que em 1902 era ministro de Relações Exteriores da Argentina, retomou uma parte da Doutrina Calvo, fê-la sua e acrescentou que não se podia utilizar a força militar para exigir o pagamento de uma dívida externa. Na época, provocou um debate diplomático porque, evidentemente, os Estados Unidos eram totalmente contrários, tanto da Doutrina Drago como da Doutrina Calvo.
Enquanto isso, os países da América Latina nos anos 1920 e 1930 começaram a adotar e incorporar em suas Constituições nacionais elementos das doutrinas Drago e Calvo.
E a ofensiva neoliberal desde a década de 1980 nestas terras consistiu em destruir a aplicação dessa doutrina, o que faz com que, por exemplo, na Constituição argentina ainda esteja claramente presente a doutrina Drago e Calvo, mas, na prática, a partir da ditadura cívico-militar de 1976, a Argentina renuncia, nos contratos de emissão de bônus de dívidas, à sua soberania e à sua imunidade. E a partir de então delega à Justiça dos Estados Unidos a possibilidade de ditar sentença.
O que está ocorrendo com o juiz Griesa, é claro que devemos condená-lo. Temos que condenar essa ingerência dos Estados Unidos e do juiz em assuntos da Argentina, mas para enfrentar esta ingerência é necessário que os países da América Latina coloquem novamente em prática as doutrinas Calvo e Drago. Ou seja, quando os países da América Latina emitirem bônus devem deixar claro no contrato que em caso de litígio é a Justiça local, a Justiça Federal, que vai dirimir o conflito.
Isso é fundamental. Seria um primeiro passo para enfrentar a situação atual e evitar uma extensão da ofensiva tipo Griesa contra outros países da América Latina.
Creio também que, falando de alternativas, é importante convencer outros países da América Latina a seguirem o caminho escolhido pela Bolívia, Venezuela e Equador, que decidiram sair do tribunal do Banco Mundial | [3]
Estes três governos, começando pela Bolívia, que toma essa decisão em 2008, decidiram renunciar à sua participação como parte do tribunal do Banco Mundial sobre litígios em matéria de investimentos.
E seria muito bom para a América Latina que um país como a Argentina tomasse essa mesma decisão. O Brasil tomou essa decisão antes, já que não reconhece a competência do CIADI. Talvez o Brasil seja dos países da América Latina que, por tradição como superpotência regional, mais afirma a sua soberania e assina poucos tratados que deleguem sua soberania a outras jurisdições.
Mas, além disso... como destacou Luis Bilbao, abordar a problemática dos "fundos abutres" nos obriga a retornar ao tema da dívida externa. Uma dívida externa que, em grande parte, é dívida ilegítima.
Uma parte da dívida contratada paga pela Argentina hoje é uma herança da dívida contratada pela Junta Militar entre 1976-1983... É uma herança da dívida contratada por Carlos Menem na década de 1990, quando implementou uma política neoliberal brutal.
É uma herança da Megatroca organizada pelo Domingo Cavallo em 2001 quando era ministro da Economia do governo de De La Rúa... que caiu sob a pressão da rua... da rua, em dezembro de 2001.
O que fez o presidente Rodríguez Saa, presidente durante uma semana, a última semana de dezembro de 2001? Decide uma suspensão unilateral do pagamento da dívida, manifestando (se recordo bem) que: "enquanto não houver pleno emprego no país, suspendo o pagamento da dívida".
O pagamento da dívida comercial (de cerca de 90 bilhões de dólares) foi suspenso durante o período que vai de 2001 a 2005. Graças a isto a Argentina conseguiu recuperar o nível econômico e, aproveitando o aumento dos preços de suas exportações, a partir de 2003, pôde investir em desenvolvimento econômico e ter uma verdadeira recuperação.
Houve então a reestruturação da dívida, a partir de 2005, através da qual a Argentina realizou uma troca da dívida, conseguindo com isso um significativo pagamento desta, mas, ao mesmo tempo, aceitou reconduzir a delegação da jurisdição e a renúncia à soberania, e aceitar a imunidade nos novos contratos. E, depois, em 2010, reabriu a troca da dívida, com iguais características.
Então, claro, denunciamos os "fundos abutres". Mas é preciso dar-se conta de que se nós cometemos erros, os inimigos vão se aproveitar desses erros. Podem apoiar-se nestes erros de estratégia ou de tática para impor, na prática, seus interesses.
Quero voltar ao tema da dívida, já que se converte, novamente, em um poderoso instrumento de subordinação dos povos da América Latina. Que será um instrumento, nos anos vindouros, para impor novamente políticas neoliberais como se está fazendo na Europa, de onde venho e que atualmente é o epicentro da ofensiva do capital contra o trabalho, dos credores contra os devedores.
Creio que não se deve descartar uma nova crise da dívida externa nos próximos anos, que pode afetar a América Latina por duas razões: os Estados Unidos vão aumentar a taxa de juros em nível internacional. Já é uma decisão, já foi anunciado. O faz por etapas e, embora a taxa de juros ainda seja muito baixa, o aumento virá nos próximos meses e anos, e isso está absolutamente claro. E o outro tema é a redução dos preços das matérias-primas. Isso também é uma possibilidade para o futuro. Se coincidir um aumento da taxa de juros internacional e uma baixa nos preços das exportações de petróleo, de soja (da Argentina), de minerais, etc., outra vez a América Latina pode cair na armadilha da dívida pública soberana como aconteceu na década de 1980. E para sair disso, creio que se deve combinar várias estratégias. Estamos aqui discutindo alternativas.
Penso que a história nos demonstra que, por meio de atos soberanos unilaterais baseados no direito internacional, um país pode obter o respeito dos interesses do seu povo.
E isso remonta ainda ao século XIX, quando o primeiro presidente de raiz indígena da América Latina, Benito Juárez, indígena zapoteca, decidiu, em 1861, como presidente do México, suspender o pagamento da dívida com a França e com Londres, o que implicou depois uma intervenção militar francesa com vistas a impor o imperador Maximiliano, que foi mais tarde derrubado pela resistência do povo mexicano e resultou na vitória de Benito Juárez. Esse imperador imposto por Napoleão III foi executado em 1867 pelo Exército mexicano vitorioso contra a França.
Recordar também, porque estou fazendo um pouco de história, que Karl Marx escreveu (em 1867) no capítulo 31 do Livro I de O Capital o seguinte:
"A Dívida Pública, com outras palavras, é a alienação do Estado, quer seja despótico, Constitucional ou Republicano, marca com o seu selo a era capitalista. A dívida pública opera como um dos agentes mais enérgicos da acumulação primitiva. Com as dívidas públicas nasce um sistema de crédito internacional que oculta muitas vezes uma das fontes da acumulação primitiva capitalista".
Voltamos novamente à dívida pública, que pode transformar-se nos próximos anos em um instrumento de dominação.
Mas, passando para o século XX que, quando se iniciou a revolução mexicana, em 1914, uma das primeiras decisões de Emiliano Zapata e Pancho Villa foi a suspensão do pagamento da dívida | [4] .
O México suspendeu o pagamento entre os anos 1914 e 1942 e conseguiu impor aos credores uma redução da dívida de 90% tal como existia em 1914, ou seja, sem nenhum juro agregado. Uma vitória total que demonstra a importância de um ato soberano unilateral frente aos credores.
Na década de 1930, 14 países da América Latina suspenderam os pagamentos da sua dívida externa: Cuba, em 1933; o Brasil, com Getúlio Vargas (1933), determinou a realização de uma auditoria da dívida e conseguiu, a partir da mesma, uma anulação da dívida através de uma reestruturação em 1943, com uma redução de 60% | [5] .
E se fizermos uma comparação entre os países que suspenderam o pagamento da dívida na década de 1930 e os que continuaram pagando, são os que suspenderam o pagamento que, apesar das represálias, conseguiram um crescimento mais alto que os outros países.
Nos últimos anos, tomemos o caso do Equador. Fiz parte da Comissão Presidencial de Auditoria da Dívida criada pelo presidente Rafael Correa, em 2007 | [6] . A mesma foi integrada por 18 pessoas, 12 das quais eram equatorianos e seis delas de outros países. Alejandro Olmos Gaona da Argentina, entre outros.
Esta Comissão analisou a dívida contratada pelo Equador entre 1976 e 2006 e após 14 meses de trabalho remeteu o resultado ao governo de Rafael Correa [7] que, em novembro de 2008, decidiu suspender o pagamento de maneira unilateral de uma parte da dívida comercial. Tinha o dinheiro para pagar, mas disse: "É uma dívida ilegítima; não há razão para pagar uma dívida ilegítima" e conseguiu impor aos credores, baseado no resultado da auditoria, uma redução de 70% em junho de 2009. Aqui houve uma diferença entre as decisões tomadas na Argentina dos anos 2000 e o Equador, que fez uma auditoria e, a partir do resultado da mesma, uma recompra de títulos (não uma troca) recomprando a 30 centavos de dólar os títulos da dívida externa.
Desta maneira, não houve a possibilidade de que o Equador fosse levado a juízo pelos Estados Unidos, já que os títulos deixaram de existir. Não houve troca. Do que cabe tirar uma importante lição.
Terceiro exemplo: a Europa converteu-se, como já se mencionei, no epicentro de uma brutal ofensiva neoliberal capitalista dos últimos anos. A Grécia converteu-se em um país similar aos da América Latina ou da Ásia dos anos 1980-1990. Ou seja, submetido aos ditames do Fundo Monetário Internacional e dos credores.
Há uma experiência pouco conhecida, tanto na Europa como no resto do mundo. É o caso da Islândia que, em 2008, viu a bancarrota total de seu sistema bancário, a exemplo do que havia acontecido no Equador em 1999. A Islândia, com uma mobilização popular muito forte, decidiu não pagar a sua dívida externa ao Reino Unido e Países Baixos.
O Reino Unido protestou de maneira muito espalhafatosa contra a decisão unilateral do não pagamento e considerou a Islândia como um país terrorista equivalente à Al Qaeda, congelando os haveres da Islândia no Reino Unido.
Apesar disso, a partir de uma mobilização popular e de dois referendos, a população deste país obrigou o seu governo a não pagar a dívida desde 2008 até a data, tanto ao Reino Unido como aos Países Baixos, convertendo-se em um ato soberano unilateral, que permite à Islândia um crescimento econômico maior que o resto da Europa. E podemos comparar a Islândia, que se rebelou contra os credores, com a Grécia, que aceitou a dominação por parte dos credores e que, em consequência, tem uma queda do PIB de 20%, comparável ao que teve a Argentina entre 1999 e final de 2001 e início de 2002.
Então, um argumento muito forte é que os países têm o direito de adotar ou tomar atos soberanos unilaterais.
Imaginar que uma justiça internacional vá dar razão à Venezuela, à Argentina, ao Equador é sonhar com um mundo que ainda não existe. Devem-se tomar atos soberanos unilaterais. Os Estados Unidos fazem-no todos os dias. Eles tomam atos soberanos unilaterais cada dia, por más razões: embargo contra Cuba ou o apoio a Israel, por exemplo. Israel multiplica os atos soberanos unilaterais, que leva quase ao genocídio do povo palestino. E, no entanto, não acontece nada...
Por que não agir de maneira soberana, unilateral, mas fundado no argumento do direito internacional, para respeitar a dívida social contratada com os povos e, simultaneamente, acelerar em nível de América Latina o lançamento do Banco do Sul, instituir o controle do movimento de capitais lá onde não existe, manter ou instituir o controle cambial, socializar a banca privada, decretar o monopólio público sobre o comércio exterior?
Parece-me que Luis Bilbao terminou dizendo: não há solução sem programa ou revolução socialista. Isso faz parte da reivindicação socialista transitória rumo ao Socialismo. É preciso ir além da denúncia do imperialismo em nível teórico e dos fundos abutres, para pensar como fazer a integração dos povos e voltar ao caminho indicado por Hugo Chávez, quando apelava à criação do Banco do Sul, à integração dos Povos e à instauração de mecanismos de integração a favor dos Direitos Humanos.
Muito obrigado pela atenção.
Notas
[1] A doutrina Drago recebe seu nome do ministro de Relações Exteriores argentino, Luis María Drago, que a anunciou em 1902. O motivo foi o bloqueio naval contra a Venezuela realizado pelas armadas do Reino Unido, Alemanha e Itália diante do não pagamento da elevada dívida externa acumulada pela Venezuela e cujo presidente, Cipriano Castro, se negava a pagar. Apesar de que a doutrina Monroe o exigia, os Estados Unidos se negaram a defender a Venezuela com o argumento de que não ajudaria em casos de não pagamento de dívida. Diante disso, a doutrina Drago estabeleceu que nenhum país estrangeiro poderia utilizar a força para cobrar uma dívida. Embora a doutrina Drago tenha se inspirado na também argentina doutrina Calvo, ambas não devem ser confundidas.
[2] A Doutrina Calvo de Direito Internacional faz referência ao jurista argentino Carlos Calvo (1824-1906). Esta assinala que quem vive em um país estrangeiro deve realizar suas demandas atendo-se à legislação local desse país, sem recorrer a pressões diplomáticas nem intervenções armadas. Quanto às vias diplomáticas internacionais, não se poderia recorrer a elas antes de ter esgotado as vias jurídicas locais. Várias Constituições da América Latina recolhem esta doutrina Calvo.
[3] Este tribunal do Banco Mundial é o Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos, CIADI.
[4] Ver Éric Toussaint, "México: o escândalo silencioso da dívida externa e do modelo neoliberal", publicado em julho de 2002, cadtm.org/... http://cadtm.org/Mexico-El-escandal.. .
[5] Éric Toussaint. "Retorno ao passado: colocação em perspectiva da crise da dívida, em A bolsa ou a vida. A dívida externa do Terceiro Mundo. As finanças contra os povos. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.
[6] Ver www.auditoriadeuda.org.ec/
[7] Ver o relatório final da CAIC www.auditoriadeuda.org.ec/
Eric Toussaint é belga, historiador, economista, cientista político, doutor em Ciências Políticas, membro da Comissão Presidencial de Auditoria Integral de Crédito Público (CAIC) do Equador, presidente do Comitê Internacional pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM) e professor titular da Universidade de Liège (Bélgica). Discurso pronunciado no Seminário Internacional "Alternativas ao imperialismo financeiro e aos fundos abutres", em Caracas (Venezuela), no dia 12 de agosto de 2014. Participaram como expositores deste fórum internacional: Delcy Rodríguez, ministra da Comunicação e Informação; Elías Jaua, chanceler da República Bolivariana da Venezuela; Carlos Cheppi, embaixador da Argentina na Venezuela; Éric Toussaint, CADTM; Luis Bilbao, Revista America XXI, Argentina.


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