Alguns velhos colegas do PSDB me acionaram no bate papo do
facebook sobre o pequeno comentário que postei sobre o caso Alstom, não tocaram
no mérito da questão, apenas disseram que foi impactante o modo como utilizei a
palavra “tucanos”, segundo eles, parecia carregado de rancor, raiva, algo
estranho a minha natureza.
De fato, nunca usei a expressão tucanos do modo como
utilizei, não foi por mágoa, mas foi emocional sim, se tem algo de impactante,
foi a cassação do CRE – Conselho dos Representantes dos Empregados da
Eletropaulo em 1996 de forma autoritária e arbitrária.
Apesar da grande divergência política, não posso deixar de
registrar que a esquerda apostou em Fernando Henrique para o senado federal, do
mesmo modo, apostamos em Covas para evitar os abusos malufistas, e mais, nossa
relação com o José Serra sempre foi amistosa desde os velhos tempos do
movimento estudantil (UNE). De modo particular, tenho gratidão a Franco
Montoro, grande democrata, foi ele quem criou os CRE’s, conselhos dos
Representantes nas Estatais, instrumento importante para a transparência
pública, isso já naquele tempo.
Evidentemente, cada qual em seu projeto, em sua concepção
política, de forma respeitosa, desejo registrar que um de meus principais
amigos, vinha do PSDB, e não era pouca coisa, me afastei dele, não pela pessoa,
mas devido a sérias divergências de seu período de ministro no governo FHC,
estou falando de Sérgio Motta. As privatizações das teles me afastaram do Serjão,
como era chamado, essa é a verdade, porém, carrego certa dor de não o ter
reencontrado antes de sua morte, não imaginava que isso iria ocorrer.
Bem, vamos lá, entrei na Eletropaulo em 1985 como aprendiz
do Senai, o clima dentro da empresa ainda refletia os sonhos das diretas já, em
meados de 1986 realizei minha primeira experiência profissional na manutenção e
instalação dos aparelhos de ar condicionado no prédio Alexandre Mackenzie,
atual Shopping Ligth no Anhangabaú. O prédio construído em 1926 é realmente
lindo, divide espaço com o viaduto do chá e o teatro municipal, e na época dividia
também com a loja do Mapping na Praça Ramos de Azevedo.
Certo dia, me pediram para instalar uma tomada na sala do
vice presidente da empresa, nem imaginava quem era, subi ao segundo andar do
prédio onde ficava a diretoria e flutuei em um carpete que tinha dois dedos de
espessura, chegava flutuar, era de grande luxo. Localizei a sala do vice e vi a
placa na porta, Sérgio Motta, bati, fui atendido pelo mesmo, e não houve
conversa até o fim do serviço. Antes de sair da sala o interrompi em meio a uma
série de papéis, sua tomada esta pronta, ele pegou uma televisão vinda de
Miami, aquelas de 5” em preto e branco, não me lembro se ele mesmo a adquiriu
em viagem, ou se foi dada como presente.
Pegou o plug da TV e me disse, vou ligar, se queimar você
vai pagar, meu corpo estremeceu, um aparelho daquele na época devia custar uns três
ou quatro salários meus, por medo o interrompi, vou medir a voltagem da tomada
de novo, disse, é 110V mesmo, pode ligar.
Ufa! A TV funcionou, ao recolher as ferramentas deixei cair
um pequeno rosário de madeira no chão, ao vê-lo, o Motta, como o passei a
chamar, perguntou-me se era católico, respondi brincando, desde que nasci, falei
um pouco sobre minha mãe e as Comunidades Eclesiais de Base (Ceb’s), foi quando
ele me falou que tinha um grande amigo engajado nessa luta, pasmem pela coincidência,
meu ídolo, Herbert de Souza, o Betinho.
Imediatamente sorri, era tudo que eu queria, chegar até o
Betinho, o Motta me disse que eram amigos muito próximos desde os tempos da AP
(Ação Popular), daquele dia em diante fiquei no pé dele, o encontrava às vezes
no almoço e cobrava, e outras vezes pelo corredor.
Cobrava de modo discreto, descontraído, uma vez que, minha
roupa nem sempre estava limpa, calça azul marinho e camisa azul claro, ele
sempre de terno sofisticado e gravata colorida, quantas vezes o vi com o tal
suspensório, achava engraçado aquele treco.
Ao final das contas acabei conhecendo o Betinho de outra
forma, um Padre amigo (Pe. José Teixeira de Jesus, Pe. Pedrinho) havia dado um
jeitinho para que eu pudesse entrar em um curso de verão sobre teologia na PUC,
pois era proibida a inscrição de menores, tive sorte, um dos palestrantes era o Betinho,
o outro, o pastor luterano Milton Schwantes.
Me afastei do Serjão (Motta) em função da política de
privatizações do governo FHC e nunca mais tive contato até o dia de sua morte,
a única vez que o vi nesse período foi na morte de Betinho, estava realmente muito
triste, eram de fato grandes amigos. Motta faleceu no ano seguinte, se não me
engano, na mesma semana da privatização da Eletropaulo, confuso, me recolhi ao
sagrado silêncio.
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