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Eu, Motta e o PSDB

Postado por Bernardino Brito quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014


Alguns velhos colegas do PSDB me acionaram no bate papo do facebook sobre o pequeno comentário que postei sobre o caso Alstom, não tocaram no mérito da questão, apenas disseram que foi impactante o modo como utilizei a palavra “tucanos”, segundo eles, parecia carregado de rancor, raiva, algo estranho a minha natureza.

De fato, nunca usei a expressão tucanos do modo como utilizei, não foi por mágoa, mas foi emocional sim, se tem algo de impactante, foi a cassação do CRE – Conselho dos Representantes dos Empregados da Eletropaulo em 1996 de forma autoritária e arbitrária.

Apesar da grande divergência política, não posso deixar de registrar que a esquerda apostou em Fernando Henrique para o senado federal, do mesmo modo, apostamos em Covas para evitar os abusos malufistas, e mais, nossa relação com o José Serra sempre foi amistosa desde os velhos tempos do movimento estudantil (UNE). De modo particular, tenho gratidão a Franco Montoro, grande democrata, foi ele quem criou os CRE’s, conselhos dos Representantes nas Estatais, instrumento importante para a transparência pública, isso já naquele tempo.

Evidentemente, cada qual em seu projeto, em sua concepção política, de forma respeitosa, desejo registrar que um de meus principais amigos, vinha do PSDB, e não era pouca coisa, me afastei dele, não pela pessoa, mas devido a sérias divergências de seu período de ministro no governo FHC, estou falando de Sérgio Motta. As privatizações das teles me afastaram do Serjão, como era chamado, essa é a verdade, porém, carrego certa dor de não o ter reencontrado antes de sua morte, não imaginava que isso iria ocorrer.

Bem, vamos lá, entrei na Eletropaulo em 1985 como aprendiz do Senai, o clima dentro da empresa ainda refletia os sonhos das diretas já, em meados de 1986 realizei minha primeira experiência profissional na manutenção e instalação dos aparelhos de ar condicionado no prédio Alexandre Mackenzie, atual Shopping Ligth no Anhangabaú. O prédio construído em 1926 é realmente lindo, divide espaço com o viaduto do chá e o teatro municipal, e na época dividia também com a loja do Mapping na Praça Ramos de Azevedo.

Certo dia, me pediram para instalar uma tomada na sala do vice presidente da empresa, nem imaginava quem era, subi ao segundo andar do prédio onde ficava a diretoria e flutuei em um carpete que tinha dois dedos de espessura, chegava flutuar, era de grande luxo. Localizei a sala do vice e vi a placa na porta, Sérgio Motta, bati, fui atendido pelo mesmo, e não houve conversa até o fim do serviço. Antes de sair da sala o interrompi em meio a uma série de papéis, sua tomada esta pronta, ele pegou uma televisão vinda de Miami, aquelas de 5” em preto e branco, não me lembro se ele mesmo a adquiriu em viagem, ou se foi dada como presente.

Pegou o plug da TV e me disse, vou ligar, se queimar você vai pagar, meu corpo estremeceu, um aparelho daquele na época devia custar uns três ou quatro salários meus, por medo o interrompi, vou medir a voltagem da tomada de novo, disse, é 110V mesmo, pode ligar.

Ufa! A TV funcionou, ao recolher as ferramentas deixei cair um pequeno rosário de madeira no chão, ao vê-lo, o Motta, como o passei a chamar, perguntou-me se era católico, respondi brincando, desde que nasci, falei um pouco sobre minha mãe e as Comunidades Eclesiais de Base (Ceb’s), foi quando ele me falou que tinha um grande amigo engajado nessa luta, pasmem pela coincidência, meu ídolo, Herbert de Souza, o Betinho.

Imediatamente sorri, era tudo que eu queria, chegar até o Betinho, o Motta me disse que eram amigos muito próximos desde os tempos da AP (Ação Popular), daquele dia em diante fiquei no pé dele, o encontrava às vezes no almoço e cobrava, e outras vezes pelo corredor.

Cobrava de modo discreto, descontraído, uma vez que, minha roupa nem sempre estava limpa, calça azul marinho e camisa azul claro, ele sempre de terno sofisticado e gravata colorida, quantas vezes o vi com o tal suspensório, achava engraçado aquele treco.

Ao final das contas acabei conhecendo o Betinho de outra forma, um Padre amigo (Pe. José Teixeira de Jesus, Pe. Pedrinho) havia dado um jeitinho para que eu pudesse entrar em um curso de verão sobre teologia na PUC, pois era proibida a inscrição de menores,  tive sorte, um dos palestrantes era o Betinho, o outro, o pastor luterano Milton Schwantes.

Me afastei do Serjão (Motta) em função da política de privatizações do governo FHC e nunca mais tive contato até o dia de sua morte, a única vez que o vi nesse período foi na morte de Betinho, estava realmente muito triste, eram de fato grandes amigos. Motta faleceu no ano seguinte, se não me engano, na mesma semana da privatização da Eletropaulo, confuso, me recolhi ao sagrado silêncio.

 

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