Você já ouviu falar em queima de água? O termo aqui
utilizado é o mesmo aplicado nas propagandas sobre queima de estoques das lojas
de sapatos, roupas, eletrodomésticos e outros.
O que não passa pela cabeça de qualquer cidadão brasileiro é
que essa queima de estoque também ocorre na geração de energia elétrica na
forma de vazão de água das usinas, e mais, que este ato provoca a elevação dos
custos que compõem a tarifa do serviço.
A política de despacho das usinas está tecnicamente equivocada,
ou empresários do segmento termoelétrico, clientes livres e agentes de mercado
praticam algum tipo de lobby interferindo diretamente na atividade com o
objetivo claro de obter vantagens. O fato constatado é que cada vez mais os
reservatórios das usinas hidrelétricas estão sendo consumidos em intervalos
menores de tempo o que eleva o despacho das térmicas, o que não pode ser
atribuído somente às condições hidrológicas e de crescimento econômico do país.
Para obter sobra de energia e proporcionar a sua venda no
mercado de curto prazo (spot), as hidrelétricas são levadas ao limite de
operação, zona de risco, a intensa e constante geração cria excedente
energético. Para onde vai o excedente? Os chamados clientes livres podem
efetuar contratos de curto prazo para a compra do “excedente” em leilões da câmara
de comercialização a preços bem inferiores ao do mercado cativo.
Quando os reservatórios chegam ao limite crítico de geração,
as termelétricas são acionadas para complementar a carga e ajudar a recuperar
os níveis destes mesmos reservatórios. A transferência de energia do mercado
cativo aos mercado livre trás sérios danos aos consumidores comuns em função da
elevação dos custos de operação das termelétricas devido à queima de óleo,
carvão, gás natural, bagaço de cana, etc. Os custos adicionais do sistema relativos
a operação das termoelétricas são rateados entre todos os consumidores do mercado
cativo, livrando os clientes livres e agentes de comercialização destes riscos
e os transferindo a toda sociedade.
O procedimento também provoca sérias distorções ao fluxo de
caixa das distribuidoras de energia, pois estas são obrigadas a arcar com os
custos mensais do uso das termelétricas, assim, estes valores só começarão a
ser devolvidos após o reajuste anual das empresas onde serão transferidos aos
consumidores. O mercado de curto prazo já abrange 25% da energia negociada em
contratos, o nível de especulação no setor cresceu a tal ponto que levou ao
aumento da inadimplência entre clientes e agentes, resultado de operações precipitadas
e desastrosas.
Espera-se que os efeitos da redução de tarifa ao segmento da
indústria possa diminuir a pressão sobre o mercado de curto prazo promovendo o
retorno de uma parte ao mercado cativo, uma vez que a grande maioria destes
clientes pertence ao ramo da indústria. Se a migração ocorrer, certamente irão
aumentar os ganhos de expansão de receita das distribuidoras melhorando a rentabilidade
dos acionistas, a empregabilidade e os salários dos trabalhadores, mas é difícil
prever em que nível e em que prazo. Se o
mercado livre continuar excessivamente aquecido, não restará alternativa ao
governo, senão a intervenção e regulamentação mais rígida da atividade.